Um café sobre a mesa
dá-me sono,
dás-me sono.
A culpa que cai num desviar do olhar não me atinge
porque não me levanto.
Tenho a sobriedade suficientemente sã para saber que não é minha a culpa.
O primeiro gole de café
queima-me,
queimas-me.
Deito-me sobre a fuligem que o teu desrespeito polvilha
e sacudo do espírito os dedos apontados da ingenuidade
de quem se deixa seduzir pela mais banal mentira.
Quando enterras as pessoas no inferno que és,
sentes as queimaduras na tua própria pele
e vives
vives com isso como refugiado da realidade que crias
no cérebro inocente de quem não vê.
Como cai tão bem a fuligem nos olhos das tuas vítimas.
O café a meio e eu, que sempre neguei gostar de café,
tento despertar na homogeneidade do murmurinho e do silêncio da rapariga
que docilmente me culpa, engolindo saliva sempre que,
por azar,
lhe sorrio atrevidamente.
Por ser tão diferente, torno-me tão igual, ainda difusa
e ao chegar o último gole eu sei, por me conhecer tão melhor,
que não é minha a culpa.
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