"- Tu não tens coração..."
            Ter, até tenho. E tenho também o poder de conseguir ignorar todos os sentimentos que o atravessam, como se os fosse acumulando, guardando todos numa caixa velha no meu sótão, como se não passassem de meros objectos velhos e esquecidos, rotos, sujos e manchados, que guardo como recordações.
            Quem sou eu, e o que faço aqui? Não sinto, não dou importância, serei alguém? Serei pessoa? Por vezes penso que sou apenas algo. Algo insensível, feio, frio. Algo invencível e ao mesmo tempo algo tão frágil. Como se tivesse um botão de on/off para ligar e desligar os meus sentimentos.
            Mas por vezes, tal como uma caixa cheia de objectos inutilizados, o meu coração também enche e transborda, e a pessoa forte, corajosa e insensível que todos vêem transforma-se num ser totalmente diferente. O botão "on" liga-se mesmo sem eu querer e todos os sentimentos e lembranças amarrotados e apertados dentro do meu pequeno coração rebentam os fracos cordéis imaginários que os seguram e implodem dentro de mim, raivosamente e com a pressa de alguém atrasado para o primeiro dia de trabalho. E os sorrisos, os olhares confiantes e as palavras vencedoras unem-se num só e transformam-se em lágrimas, que escorrem lentamente pela minha cara, percorrendo cada milímetro com o maior dos pormenores, como se quisessem prolongar a dor, como paga de todo o tempo que estiveram aprisionados.
            Alguém me ajude, alguém me ensine a dominar o meu coração.
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