Agarro na tua mão lívida e enrugada, quente como um céu em chamas, que não aperta a minha em retorno. Não respondes a quase nada e continuas teimosa como desde o primeiro dia da minha vida, quando te conheci.
O meu pai insistiu durante a viagem que pedisse para me relembrares o que em tempos do primeiro ciclo me havias ensinado: dobrar sacos de plástico. Tinhas um invulgar dom para dobrá-los, transformando-os em chamuças perfeitamente adaptadas à arrumação. Resmunguei, dando-lhe a entender que tens estado fraca e cada mínimo esforço é para ti uma maratona.
Como sempre, ou quase, dei o braço a torcer. Palmilhei pelos corredores do hospital em busca de um saco de plástico, ainda que não o fizesse para satisfazer a vontade de ver as dezenas que temos devidamente organizadas como o meu pai anseia, mas sim pelo valor sentimental que um momento desses poderia criar.
Encontrei um homem, dez quartos mais tarde, pendurando asquerosamente num dos dedos um saco branco cheio de lenços de choros alheios. Entrei e pedi-lho, "Estava mesmo a precisar dele!", e o homem de olhos esbugalhados e cabelo marcado pelo tempo entregou-mo lentamente numa estupefação torpe. Tinha motivos para isso. Quem é que precisa mesmo de um saco cheio de papéis ranhosos? Ele também não precisava de saber mais nada. Corri para o quarto onde estavas e refugiei-me rapidamente ao lado da tua cama.
"- Já tenho um saco". Nem um balbuciar em resposta. Os teus olhos, outrora vivos e juvenis, secaram como flores no deserto, mas fitavam-me com um olhar docente. Começaste a enrolar o plástico e o meu coração acelerou, por pouco tempo. O batimento seguro pela emoção diminuiu reprimiu quando me apercebi que o teu dom tinha desertado. O saco, que dantes acabaria num triângulo perfeito, tomou as propriedades de um trapo e não tomou qualquer forma geométrica, ficando um borrão de matéria sintética nas tuas mãos, que me lembrava os hematomas que tinhas nos braços.
Enfim falaste, ainda que para dizer algo que magoou violentamente.
"- É assim"... Não avó. Não é assim. Nunca foi. Como nunca tinhas usado esse olhar desmaiado para mim, como nunca tinhas dito tão languidamente que a tua Andreia te tinha ido visitar.
Estás perto do fim e isso já não me sobressalta. Mereces descanso por tudo o que penaste.
Repito o que te disse ao ouvido: gosto muito de ti.
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